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Opinião

Será que a Igreja da Nigéria conseguirá resistir à perseguição?

A comunidade cristã da Nigéria era, há muito tempo, considerada um lugar de promessa. Suas igrejas têm sido motores de educação, caridade e formação cívica. Seus fiéis têm sido pastores, professores, empreendedores e pacificadores. Essa promessa agora está sob ataque.

Um relatório da Sociedade Internacional para as Liberdades Civis e o Estado de Direito constatou que, nos primeiros sete meses de 2025, mais de 7.000 cristãos foram mortos em toda a Nigéria e milhares foram sequestrados ou deslocados. Essas não são estatísticas para serem arquivadas. São tragédias vivas que exigem uma resposta moral tanto da Nigéria quanto da igreja global.

O padrão de violência é sombrio e cada vez mais concentrado. Os estados do Cinturão Médio — Plateau, Benue e Taraba — têm visto, repetidamente, aldeias inteiras atacadas, casas incendiadas e pessoas assassinadas enquanto oravam ou trabalhavam em seus campos.

Os ataques frequentemente combinam as táticas de milícias armadas e grupos extremistas. Em junho de 2025, homens armados invadiram a aldeia de Yelwata, matando dezenas de pessoas e deixando para trás prédios carbonizados e famílias destruídas. Sobreviventes descreveram cenas de horror e a sensação de que o Estado não podia ou não queria fornecer proteção confiável.

Falar abertamente sobre o que está acontecendo na Nigéria significa confrontar diversas verdades incômodas. Para começar, a violência raramente é um problema de causa única. Ela cresce na interseção da ambição jihadista, da tensão étnico-religiosa, da disputa por terra e água, da fragilidade policial e de padrões de impunidade que permitem aos agressores operar com pouco receio de serem processados. O resultado é um lento colapso da segurança em comunidades que, há muito tempo, são a espinha dorsal da nação.

É importante ressaltar que o preço a pagar não é apenas material, mas também espiritual e cívico. Quando igrejas são atacadas, quando pastores são assassinados, quando bairros inteiros fogem de suas casas, o tecido social se desfaz. Mercados fecham, escolas são abandonadas e os rituais que formam a imaginação moral deixam de ser praticados. Nessas condições, até mesmo formas modestas de vida cívica se tornam difíceis de sustentar.

A liberdade religiosa se torna uma expressão vazia, uma mera teoria, para aqueles que não podem praticar sua fé sem medo. É por isso que a violência é, antes de tudo, um problema moral. É uma falha no dever humano mais básico: proteger os inocentes e os mais vulneráveis.

É evidente que as respostas internacionais e nacionais têm sido, até agora, inadequadas. Os governos emitem condenações e prometem investigações. Por vezes, as forças de segurança efetuam prisões. Contudo, os processos judiciais são raros e as condenações, ainda mais.

O jornalismo investigativo e a documentação sobre direitos humanos multiplicaram-se, mas a vontade política para promover a responsabilização em larga escala é limitada.

A percepção de impunidade torna-se, por si só, um acelerador da violência

A comunidade internacional deve reconhecer que as declarações legalistas de preocupação não substituem a pressão diplomática concertada e a prestação de apoio direcionado para fortalecer os mecanismos de justiça locais.

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A resposta necessária

O que a igreja deve fazer diante de tanto sofrimento? Primeiro, deve dar um testemunho visível. No norte e centro da Nigéria, muitas congregações continuam se reunindo em campos de deslocados e em áreas rurais.

Pastores pregam coragem e perdão enquanto arrecadam alimentos e coordenam abrigos. Essa presença importa. É uma forma de resistência moral que se recusa a ceder o espaço público à violência. A igreja global pode sustentar esse testemunho fornecendo recursos para assistência, apoio a vítimas de trauma e reconstrução comunitária, respeitando a liderança e a autonomia das congregações locais.

Em segundo lugar, a igreja deve documentar e amplificar. As vozes das vítimas e dos sobreviventes precisam ser ouvidas nas capitais e nas instituições internacionais. A documentação precisa ajuda a combater os eufemismos que muitas vezes cercam esses incidentes.

Chamar um massacre de massacre não é incendiário — é verdadeiro. Quando as reportagens reduzem assassinatos seletivos a rótulos genéricos, como “conflitos comunitários”, sem reconhecer a motivação religiosa, obscurecem a dimensão moral do crime e diminuem a urgência da resposta. Líderes religiosos e a sociedade civil devem pressionar por uma linguagem clara e consistente que nomeie os ataques pelo que eles são.

Em terceiro lugar, a igreja deve pressionar por uma segurança eficaz e responsável. Isso significa instar as autoridades nigerianas a investirem na proteção local de comunidades vulneráveis, a treinarem e avaliarem as forças de segurança e a processarem os perpetradores nos tribunais. Significa também apoiar o policiamento comunitário e os sistemas locais de alerta precoce que combinem inteligência com uma resposta rápida e proporcional.

O objetivo não é a militarização pela militarização, mas, sim, a restauração da vida cotidiana, para que os agricultores possam plantar, os pais possam enviar seus filhos à escola e as congregações possam adorar sem medo.

Em quarto lugar, as instituições religiosas no exterior devem usar sua influência com sabedoria. A diplomacia é fundamental. Os governos dos EUA e da Europa devem rever as políticas que minimizam a perseguição religiosa em favor de relações transacionais.

A ajuda humanitária deve ser canalizada por meio de parceiros locais confiáveis e visar a uma recuperação duradoura, em vez de uma visibilidade de curto prazo. A defesa internacional deve exigir responsabilização e a proteção da liberdade religiosa como um direito humano inegociável. Quando apropriado, sanções e instrumentos legais devem ser aplicados contra aqueles que fomentam a violência em massa.

Em quinto lugar, a clareza teológica é essencial. As Escrituras clamam tanto por misericórdia quanto por justiça. Somos ordenados a ser pacificadores, mas também a buscar justiça para os oprimidos. A igreja deve evitar os dois erros gêmeos do quietismo e do triunfalismo. O quietismo permite o mal por meio do silêncio.

O triunfalismo conforta os poderosos e ignora a situação dos vulneráveis. A resposta cristã deve ser profética, combinando oração com solidariedade prática. Pastores e teólogos devem ensinar uma teologia robusta da liberdade religiosa que não trate a perseguição como um conceito abstrato, mas como uma afronta à imagem de Deus.

Alguns dirão que as causas são complexas demais para uma clareza moral, que a violência faz parte de lutas mais amplas por recursos e que a religião é apenas uma perspectiva. Isso é parcialmente verdade. Mas a complexidade não justifica a opacidade moral.

Mesmo quando os motivos são mistos, quando grupos terroristas ou milícias atacam deliberadamente comunidades identificáveis pela fé, há um crime moral claro e evidente. Rotular esses crimes com sobriedade é abrir caminho para soluções específicas.

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Devemos também ter cuidado para não instrumentalizar o sofrimento dos cristãos nigerianos para fins partidários

Atores políticos no Ocidente podem ser tentados a usar a crise como arma para agendas internas. Isso desonraria as vítimas e desviaria a atenção do verdadeiro trabalho de proteção e reconciliação. A igreja deve se pautar por um padrão mais elevado. A defesa dos perseguidos deve ser honesta, cuidadosa e focada na justiça, e não no espetáculo.

Existem medidas práticas que podem e devem ser tomadas imediatamente. Ministérios e ONGs devem coordenar-se para fornecer abrigos seguros, apoio à saúde mental e assistência jurídica para as vítimas.

As dioceses locais devem investir em redes de alerta precoce e em mecanismos de resolução de conflitos comunitários que possam atenuar as tensões antes que elas se transformem em violência.

Os parceiros internacionais devem financiar o desenvolvimento de capacidades dos tribunais e promotores locais para que os perpetradores possam ser levados à justiça sem demora excessiva. Por fim, a mídia deve noticiar os fatos com nuances e seriedade moral, resistindo ao sensacionalismo. Juntas, essas medidas podem transformar o horror em uma resposta recíproca e duradoura.

A Nigéria permanece numa encruzilhada. É fácil imaginar que os assassinatos continuarão até se normalizarem. É mais difícil imaginar o longo trabalho de reparação. Esse trabalho exigirá coragem, caridade e determinação estratégica. Exigirá que as autoridades civis cumpram suas obrigações mais básicas e que a igreja se recuse a ser apenas uma espectadora de luto. O testemunho cristão na Nigéria deve combinar oração com defesa de direitos, adoração com serviço e lamento com reforma institucional.

Em última análise, a questão é simples e direta: nós, como comunidade de fé global e como cidadãos de uma mesma família humana, trataremos o massacre de fiéis como uma emergência de consciência ou apenas como mais uma notícia?

O teste moral do nosso tempo reside em saber se organizaremos nossos recursos, nossas vozes e nossa influência para proteger aqueles que estão sendo mortos pela fé que praticam.

Se liberdade significa alguma coisa, deve significar o direito de viver e de praticar sua fé sem medo. Enquanto esse direito não for restaurado para os cristãos da Nigéria e para todos os nigerianos, a mancha em nossa consciência coletiva permanecerá.

©2025 Acton Institute. Publicado com permissão. Original em inglês: Can Nigeria’s Church Survive the Storm?

Matéria: Gazeta do Povo

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Gabriel de Melo

Criador, fundador e locutor da Rádio Esperança e também do Blog Palavra de Esperança, tem como objetivo divulgar o evangelho de Cristo par outras pessoas através da Internet por meio dos louvores e da palavra de Deus nas mídias sociais.

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