As baixarias de Brasília


Nesses últimos dias, baixarias que costumam ficar sob os tapetes da corte foram tão gritantes que, embora rotineiramente tratadas como normais, sacudiram corações e mentes dos que já não aguentam descer tão baixo. Na quarta-feira passada, um deputado federal batia boca num centro gastronômico do Lago Sul com uma prostituta. Discutiam o preço do aluguel do corpo da mulher (quem oferece dinheiro para ocupar corpo de mulher pode ser enquadrado no projeto da misoginia?). A discussão teve a participação da assessora do deputado, e foi jogado um copo de cerveja no rosto da mulher. O tumulto precisou da intervenção da PM e foi registrado boletim de ocorrência na 10.ª Delegacia. As imagens estão nas redes sociais. O deputado Luciano Alves gravou explicação admitindo estar “etilizado”, justificou-se como solteiro, e alegou ter aceitado carona da prostituta, quando ela propôs ficar com ele até o dia seguinte por R$ 3 mil. Ele diz que discordou do preço e desceu do carro.
Segundo ela, ele não quis descer do carro e a ofendia com palavras “sem classe”; ela diz ter desembarcado e chamado a mãe dele, que estava à mesa com o grupo de funcionários do gabinete do deputado. A mãe teria pedido compreensão, alegando que Luciano é filho de Deus. A “acompanhante de luxo” – como ela se denominou em entrevista ao Metrópoles – teria respondido que “não é por ser deputado que ele é mais do que eu. Nós dois somos iguais”. Na entrevista, contou ter chamado a segurança para retirar o deputado do carro dela. Perguntada pela repórter se já o conhecia, ela respondeu que nunca o tinha visto em festas de deputados. Luciano usa imóvel funcional e assumiu como suplente, em abril de 2023. Por sua popularidade como apresentador na Rede Massa, de Ratinho, teve 24.865 votos e ficou como terceiro suplente.
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Depois daquela quarta-feira, a baixaria continuou. Na reunião da CPMI que investigou o roubo dos idosos da Previdência, o relator Alfredo Gaspar apresentava seu relatório e o vice-líder do governo, Lindbergh Farias, fez um ataque ad hominem: “Estuprador!” Quando não se tem argumentos a contrapor, ofende-se a pessoa do argumentador. Acusou o relator de crime hediondo. Para justificar a torpeza, Lindbergh e a senadora Soraya Thronicke foram à Polícia Federal relatar queixa, contando a história de um estupro de menor, que gerou uma filha, segundo eles, que hoje tem 8 anos. Seria falsa comunicação de crime? Pois a tal filha, de 21 anos, foi às redes e contou ser filha de um primo de Gaspar, que teve uma relação consentida com sua mãe, quando os dois eram jovens, e que a assumiu após exame de DNA. Gaspar, promotor público de carreira, registrou queixa na polícia e Conselho de Ética. No Senado nem há Conselho de Ética na prática, porque Davi Alcolumbre não indicou seus integrantes. Ainda haveria decoro a ser preservado no Legislativo?
Baixaria maior foi não permitir investigar e apurar a sordidez de roubar R$ 6 bilhões de 6,5 milhões de idosos. No Supremo, foi 8 a 2 (só André Mendonça e Luiz Fux foram a favor) pela não prorrogação; na CPMI, arquivou-se tudo por 19 a 12. Entre esses 19 estão Soraya e Lindbergh – ela, eleita como bolsonarista no Mato Grosso do Sul; ele, por 152 mil fluminenses. Todos os 19 representam eleitores. Continuarão os eleitores confiando seu voto a quem não quer apurar um roubo sórdido? No Supremo, não tem sido diferente: Gilmar Mendes e Edson Fachin impediram a quebra de sigilo da Maridt, empresa dos Toffoli. Com isso indicam que há o que esconder – o que não é surpresa, depois de Toffoli manobrar muito para se proteger. Pelo artigo 37 da Constituição, deduz-se que tudo o que se liga ao serviço público tem de ter moralidade e precisa ser público. Resta a palavra da “acompanhante de luxo”: não são mais do que ela. Apenas são mais caros. Ela se vende por R$ 3 mil por uma noite. Eles cobram mais. Alguns, por mais de 1.001 noites.
São essas, desses dias, pequenas amostras da deplorável decadência moral que nos assola, porque permitimos, porque elegemos. Essa gente é escolhida por nós. Alguns diretamente; outros, pelos que nós elegemos. A forma de mudar isso nos será oferecida em outubro, na eleição. Está em nossas mãos. Inclusive na escolha de dois terços do Senado, que pode resgatar o Supremo. Os condutores da nação não podem ser mais venais que prostitutas. Autores de baixarias não podem ser nossos representantes. Não creio que sejamos como os que elegem e reelegem corruptos.
Matéria: Gazeta do Povo





