A tiara e os puritanos

Um grupo de católicos norte-americanos chamado Amici Vaticani lançou uma vaquinha para financiar a confecção de uma tiara papal para Leão XIV. O site oficial afirma que a tiara – o nome que designa a tradicional coroa tríplice – “é uma afirmação de união entre os fiéis dos Estados Unidos e a Igreja universal (…) um presente devoto dos fiéis católicos dos Estados Unidos para o Santo Padre. Cada detalhe dessa coroa refletirá a herança dual de Roma e da América: as tradições artísticas do Vaticano e a habilidade, generosidade e fé do povo americano”. O projeto fala em joias nas cores da bandeira norte-americana e elementos que remetam aos EUA e, especialmente, à terra natal do papa, Chicago, como espigas de milho – o estado de Illinois faz parte do corn belt americano.
Em praticamente todo site ou perfil de mídias sociais que tenha divulgado a notícia da vaquinha, um tipo de comentário se destaca: o de que era melhor usar esse dinheiro para dar aos pobres, mandar para a Faixa de Gaza, usar em qualquer outra causa, enfim, todo mundo sabe onde os outros deveriam gastar seu dinheiro. Em seu comentário no The Pillar, Ed Condon lembrou um episódio na Bíblia em que esse tipo de conselho a respeito das melhores formas de usar um bem ou recursos financeiros é feito, a propósito de um jarro caro de perfume: está lá em Mateus 26, Marcos 14 e João 12, e deixo para vocês descobrirem (se é que já não sabem) quem foi o apóstolo que achou aquilo tudo um enorme desperdício.
Temos aqui dois bons argumentos em favor da confecção da tiara para Leão XIV. O primeiro deles é mais geral: não se regateia com a beleza no culto divino, na decoração das igrejas, nas vestes litúrgicas, pois uma liturgia digna é uma ferramenta potente de evangelização. A questão, aqui, não é que toda igreja precise ser extremamente ornamentada, que toda casula precise ser cravejada de brilhantes; o critério é mais relativo que absoluto: uma comunidade carente de recursos financeiros, mas que entenda a importância da beleza no culto e se empenhe em garantir o melhor dentro de sua limitação, é como a viúva pobre que ofertou duas moedinhas no templo.
Não se regateia com a beleza no culto divino, na decoração das igrejas, nas vestes litúrgicas, pois uma liturgia digna é uma ferramenta potente de evangelização
O segundo argumento tem a ver com a tiara propriamente dita. É um costume que os católicos do local de origem de um novo papa lhe ofereçam uma coroa – no século passado, Pio XI e Paulo VI ganharam tiaras dos milaneses, pois ambos tinham sido arcebispos de Milão antes de serem eleitos ao pontificado; João XXIII foi presenteado pelos católicos de sua província natal, Bergamo. Mesmo João Paulo II, Bento XVI e Francisco, os papas mais recentes, que jamais usaram a tiara, receberam uma – no caso de Bento, também foi um presente dos católicos alemães. A coroa ainda figura nos brasões da Santa Sé, da Cidade do Vaticano e, de forma mais estilizada, em órgãos e instituições como o Vatican Media, a Livraria e Editora Vaticana, e os Museus Vaticanos.
O objeto é carregado de simbolismo graças às suas três coroas. Quando iniciou seu pontificado, em 1978, João Paulo II afirmou que, apesar de ter recusado uma coroação, considerava injusto tratar a tiara papal como um “símbolo do poder temporal dos papas”. Isso porque seu simbolismo é bem mais profundo. Na antiga cerimônia de coroação, o novo papa recebia a tiara enquanto ouvia: “receba esta tiara adornada com três coroas, e saiba que és o pai dos príncipes e reis, governante do mundo e vigário de Nosso Salvador Jesus Cristo na terra”. Outros a associavam ao Cristo sacerdote, profeta e rei; ou também mestre, legislador e juiz. Bento XVI substituiu a tiara em seu brasão por uma mitra com três faixas horizontais; o responsável pelo desenho, arcebispo (depois cardeal) Andrea Lanza di Montezemolo, dizia que as faixas remetiam à ordem sagrada, à jurisdição e ao magistério, que o papa detinha em plenitude. Outra interpretação remete à Igreja Militante, à Igreja Padecente e à Igreja Triunfante.
Um presente altamente simbólico e que tem tudo para ser executado com maestria, de forma que fique muito bonito. Parece uma ideia espetacular, mas ela tem um probleminha…
Sed contra ma non troppo
Acontece que podemos dar como certo que Leão XIV não usará o presente. Como, antes dele, não usaram a tiara nem João Paulo I, nem João Paulo II, nem Bento XVI, nem Francisco. Uma das cenas célebres do Concílio Vaticano II foi aquela em que Paulo VI deixou sua tiara sobre o altar da Basílica de São Pedro, em 1964, e nunca mais voltou a usá-la, embora ainda previsse uma cerimônia de coroação para seus sucessores, nas regras estabelecidas por ele em 1975 – João Paulo II as alterou em 1996, retirando a menção à coroação, substituída por uma missa inaugural. Eu realmente ficaria de queixo caído se Leão XIV resolvesse usar a tiara, nem que fosse uma ou duas vezes por ano.
Se for (e será) assim, o presente meio que perde o seu propósito. Você dá um presente a alguém para que o use: vista o que for de vestir, brinque com o que for de brincar, exponha o que for de expor. Os católicos americanos estariam usando seu dinheiro para algo que sabem que não será usado naquilo para o qual foi feito; algo que talvez poderá ser admirado em um museu ou em uma igreja, mas nunca na cabeça do papa. E aí surge uma outra ideia: por que não aproveitar esse impulso meritório, de oferecer a Leão XIV algo belo para uso litúrgico, e dar a ele algo que ele possa e queira usar? Um conjunto completo de vestes litúrgicas, por exemplo, ou objetos como cálices e ostensórios; daria para pensar até em uma férula (a cruz que ele usa no lugar do báculo episcopal) nova, se o papa já não tivesse adotado uma recentemente.
Isso meio que enfraquece a campanha, mas nem de longe invalida a ideia, e muito menos dá razão aos neopuritanos que se escandalizam com quem quer empenhar seu dinheiro na confecção de um presente que reflita a dignidade papal – neopuritanos, aliás, que provavelmente criticam sem saber o que mais os participantes da vaquinha fazem com o seu dinheiro, se também ajudam os mais pobres, se colaboram com alguma outra organização. Mesmo que Leão XIV cumpra o esperado e nunca use a tiara, espero que ao menos isso sirva para alguém aprender sobre a valorização da beleza e do esmero no culto divino.
Matéria: Gazeta do Povo





