As oportunidades perdidas e os desafios econômicos para 2026

O Brasil está entrando na segunda metade da terceira década do século 21 com a marca de não ter conseguido atingir a condição de país desenvolvido em termos econômicos e sociais. Para situar a posição brasileira no concerto das nações mundiais é importante lembrar que, dos 193 países filiados à Organização das Nações Unidas (ONU), 30 são classificados como países desenvolvidos, todos com renda por habitante acima de US$ 30 mil/ano. No ranking geral das nações, o Brasil tem gravitado entre o 60.º e o 70.º lugar; portanto, se as 30 nações desenvolvidos fossem excluídas do ranking, o Brasil ainda ficaria atrás de pelo menos outros 30 países em desenvolvimento.
Passadas três décadas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os analistas internacionais acreditavam que o Brasil adentraria o século 21 como um país desenvolvido, principalmente em face das riquezas naturais e do expressivo crescimento econômico no período de 1968/1973, quando as taxas anuais de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) ficaram acima de 10%. O discurso ufanista do governo se referia àquele período como “milagre brasileiro”, basicamente em função dos investimentos em setores como siderurgia, petroquímica, construção naval e geração de energia hidrelétrica. Naquele período, o crescimento médio foi de 23,6% ao ano na produção de bens duráveis de consumo e de 18,1% na produção de bens de capital físico.
A fase de expansão expressiva iniciada em 1968 foi interrompida pela crise econômica norte-americana de 1971 e agravada pelos dois choques do petróleo, em 1973-1974 e em 1979. O Brasil, que mesmo após 20 anos de criação da Petrobras ainda produzia menos de um quarto do petróleo que consumia, viu sua dívida externa aumentar e o crescimento da economia desacelerar. A crise provocou aumento nos custos de produção, empurrando os preços para cima e fazendo com que a inflação saísse do controle. Planos econômicos heterodoxos ao longo dos governos de José Sarney e Fernando Collor de Mello resultaram em fracassos retumbantes. O país tinha alta dívida externa, inflação elevada, baixo desempenho econômico e instabilidade política – o primeiro presidente civil eleito diretamente pelo povo depois da redemocratização sofreria impeachment em 1992.
Se os problemas sérios causados pela política econômica lulista não forem resolvidos, o país estará no caminho de uma nova crise
Com toda essa trajetória econômica e política, a expectativa de um Brasil grande e desenvolvido na virada do milênio começou a se desfazer. A esperança de que o país completaria o processo de redemocratização e alcançaria a prosperidade econômica se esvaiu em mais uma oportunidade perdida e períodos traumáticos da vida nacional. Quando Itamar Franco assumiu o governo após o impeachment de Collor, o cenário político e econômico estava marcado por elevados índices de pobreza, baixo nível educacional, desemprego, altos índices de violência urbana e um processo inflacionário que parecia incurável, além da velha marca de leis complexas e instáveis, Justiça funcionando mal e altos índices de corrupção e ineficiência.
Somente em meados de 1994 a inflação renitente foi vencida com a implantação do Plano Real, que, apesar de alguns percalços nos anos seguintes, foi bem-sucedido e eliminou a inflação crônica. A soma de uma condição política (a redemocratização política sob a Constituição de 1988) e uma vitória imporante na economia (com o êxito do Plano Real) seria a chance de o Brasil se recuperar; Fernando Henrique Cardoso manteve o combate à inflação, reformou o sistema financeiro nacional e privatizou bancos estatais estaduais, de forma que, ao assumir o governo em 2003, Lula dispunha de condições e oportunidade para retomar o crescimento.
Em seu primeiro mandato, Lula não deu a temida guinada radical à esquerda. No entanto, beneficiado pela excepcional situação internacional favorável, especialmente a sequência de oito anos de elevação dos preços dos produtos brasileiros exportados, Lula e seu ministro Guido Mantega lançaram uma “nova matriz econômica” baseada no incentivo ao consumo desenfreado como motor do crescimento. Esta política, mantida por Dilma Rousseff, trouxe bons indicadores no curto prazo, mas era insustentável no médio e longo prazo, resultando na gravíssima recessão de 2015 e 2016, que fez o PIB cair 7% em dois anos. Dilma, assim como Collor, sofreria impeachment, enquanto o PT colecionava escândalos de corrupção como o mensalão, surgido ainda no primeiro mandato de Lula, e o petrolão, desvendado pela Lava Jato. O Brasil, mais uma vez, cumpria seu destino de perder oportunidades e os analistas internacionais começaram a se perguntar o que, afinal, estava acontecendo com o Brasil, e a desconfiar da capacidade brasileira de crescer e superar o subdesenvolvimento.
O atraso não é um destino inevitável, mas obra de longos anos de maus governos, inchaço da máquina estatal, desperdício do dinheiro público em privilégios do funcionalismo, corrupção crônica, incapacidade de fazer reformas, leis ruins e instáveis, baixo investimento em infraestrutura física e lento crescimento da produtividade econômica.
O Brasil começa 2026 com desafios gravíssimos do ponto de vista do respeito às liberdades e garantias individuais, e que tomaram o lugar das questões econômicas como prioridade nacional – embora nem todos os formadores de opinião e entidades da sociedade civil se deem conta do grau de decomposição de nossa democracia, substituída por uma autocracia judiciária. Isso não significa, no entanto, que a economia seja irrelevante. Se os problemas sérios causados pela política econômica lulista não forem resolvidos, o país estará no caminho de uma nova crise.
E desafios econômicos para 2026 não faltam. Eles incluem a desordem nas contas do governo, com déficits crônicos e elevados; a trajetória perigosa da dívida pública; o baixo nível de investimento em capital físico (especialmente em infraestrutura de transportes, armazenagem e redes de esgoto); a baixa taxa de crescimento do PIB; o colapso do sistema educacional na educação básica e na educação superior; o desestímulo ao espírito de iniciativa e ao ímpeto empreendedor, sobretudo por obra da confusa e preocupante reforma tributária; e o encolhimento da indústria de transformação e sua baixa produtividade. Esses desafios não esgotam toda a lista de problemas econômicos do país, mas sem evoluir na solução de pelo menos parte desta lista, especialmente na questão fiscal, não há como esperar que o país entre em uma rota de crescimento econômico sustentável.
Matéria: Gazeta do Povo




