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como Dias Toffoli foi parar no STF

O ministro do STF Dias Toffoli cresceu numa família tão católica que todos os meninos receberam o nome de José e todas as meninas, de Maria. Oitavo dos nove filhos do casal Luiz (cafeicultor) e Sebastiana (professora), ele foi batizado como José Antônio — e logo passou a ser chamado de “Totonho”.

Muitos anos depois, Toffoli ficaria famoso nacionalmente por outro apelido, revelado nos documentos da Odebrecht anexados à Operação Lava Jato: “O amigo do amigo de meu pai”.

Nos códigos internos da empreiteira, Lula era tratado como o “amigo do pai” (Emílio Odebrecht, patriarca do grupo) — e Toffoli, por ser próximo do presidente, acabou virando o “amigo do amigo” por tabela. Mas essa é outra história.

Desde criança, o ministro dava sinais de que a Fazenda Floresta, em Marília (SP), onde foi criado, seria apenas o ponto de partida para ambições maiores. E, apesar de se destacar nas matérias de exatas, Totonho dizia para seus irmãos que queria ser embaixador — um projeto de carreira improvável para alguém tão novo.

Dias Toffoli, como se sabe, não virou um diplomata. Aos 41 anos, em outubro de 2009, ele se tornou o 162º ministro do Supremo Tribunal Federal.

Sua chegada à Corte, por indicação de Lula, foi cercada de desconfianças — e não apenas pela juventude. Sem mestrado, doutorado ou um livro de peso no currículo, Toffoli ainda havia sido reprovado duas vezes no concurso para juiz de primeira instância em São Paulo.

O país estava diante de um ministro cuja trajetória passava longe do roteiro tradicional da magistratura. E de um personagem que, antes de alcançar o topo do Judiciário, consolidou-se como operador jurídico, dentro das estruturas do poder, de um único partido político: o PT.

De militante estudantil a chefe da Advocacia-Geral da União (passando por assessor da bancada petista na Câmara, advogado das campanhas de Lula e homem de confiança de José Dirceu na Casa Civil), Toffoli sempre foi visto por adversários como um “ministro político”, forjado nas fileiras do Partido dos Trabalhadores.

Hoje, quase duas décadas depois da posse no STF, a interrogação em torno de seu nome mudou de natureza. As antigas dúvidas sobre fragilidades técnicas e a excessiva proximidade com o PT se somaram a algo mais grave: denúncias quanto à própria conduta do ministro — hoje acusado de estar envolvido até o último fio de barba no escândalo do Banco Master.

“Pinduras” e “peruadas”

Para entender a ascensão de Totonho, é preciso voltar a 1986, quando ele deixou o interior paulista e desembarcou na capital para estudar Direito no Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo.

Dias Toffoli morou primeiro no bairro de Cangaíba, na casa de suas irmãs Maria Esther (servidora pública) e Maria Eloiza (médica). Mas, como a região era distante da USP, o ministro acabou se mudando para o apartamento de um colega, na Bela Vista.

Para ajudar nas contas, ele trabalhou como caixa de uma pizzaria na Vila Madalena — bairro que, naquela época, concentrava parte da boemia intelectual da cidade e onde ele começou a ampliar sua rede de contatos.

Não à toa, Toffoli se destacou na USP pela habilidade política. Descrito por antigos colegas como “agregador” e “expansivo”, ele acabou virando diretor do Centro Acadêmico XI de Agosto (o mais antigo do Brasil, fundado em 1903).

Até se formar, Dias Toffoli ainda eternizaria seu nome no folclore estudantil como protagonista de várias “peruadas” (espécie de manifestação político-carnavalesca) e “pinduras selvagens” (tradição de consumir em restaurantes caros e sair sem pagar, em nome de uma suposta irreverência universitária).

Em uma de suas mais famosas travessuras, sempre lembrada pelos amigos, ele “subtraiu” o chapéu do então ministro do STF Paulo Brossard, que estava de passagem pela faculdade, e desfilou pelo pátio com o acessório — na cabeça ou segurando-o como se fosse um troféu.

Brossard, que era conhecido do grande público justamente por sua coleção de modelos clássicos de feltro ou panamá, não apresentou queixa do ocorrido.

“Pós-graduação da vida real”

A aproximação com a esquerda e o PT foi natural. Sobretudo para um advogado recém-formado em uma instituição historicamente marcada pelo ativismo estudantil e imerso no clima político da redemocratização.

Entre 1993 e 1994, Dias Toffoli atuou no Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da CUT, circulando por assentamentos, sindicatos e outros “movimentos sociais”. Ainda hoje, quando questionado sobre suas lacunas acadêmicas, ele costuma dizer que esse período foi a sua “pós-graduação da vida real”.

Ainda em 1994, Toffoli se associou de vez ao PT ao trabalhar como assessor parlamentar no gabinete de Arlindo Chinaglia na Assembleia Legislativa de São Paulo. No ano seguinte, após a reprovação no segundo concurso para juiz, mudou-se para Brasília e assumiu uma função comissionada na assessoria jurídica da liderança da legenda na Câmara.

Daí em diante, a ascensão foi rápida. Dias Toffoli saltou de assessor para advogado das campanhas presidenciais de Lula em 1998, 2002 e 2006 — nesta última, com honorários que chegaram à casa de R$ 1 milhão.

Em 2003, ele assumiu a subchefia para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, onde redigiu medidas provisórias e outros atos normativos para José Dirceu. Dois anos depois, no entanto, teve de deixar o governo após a queda de Dirceu no escândalo do Mensalão.

O jeito foi trabalhar na advocacia privada, ao lado da segunda mulher, Roberta Rangel. Mas esse tipo de pausa sempre dura pouco para quem faz parte da “companheirada”.

O operador

Em 2007, Lula o nomeou advogado-Geral da União — e foi ali que Toffoli passou a jogar mais perto do Supremo Tribunal Federal.

No começo de 2009, ele organizou uma espécie de roteiro institucional para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Os dois iriam conversar, individualmente, com cada um dos 11 ministros do Supremo.

O argumento era técnico — explicar o impacto de determinados processos nas finanças do Estado em meio à crise econômica global. E o efeito foi prático: ações que poderiam gerar perdas bilionárias para o governo ou impor mudanças imediatas no orçamento deixaram de ser julgadas naquele momento.

Como registrou a imprensa na época, conseguir o adiamento de decisões que se arrastavam há anos já representava um ganho considerável para o governo.

Quando Dias Toffoli enviou seu currículo ao Senado, após Lula indicá-lo para a Corte, um número chamava a atenção: o advogado havia protocolado 3.284 manifestações no STF em apenas dois anos e meio.

Totonho realmente não era um teórico do Direito. Mas o presidente sabia que ele era alguém que conhecia o funcionamento do Supremo na prática — e sabia operar dentro dele.

Estatizaram o STF

A sabatina no Senado durou sete horas. O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) foi o mais rigoroso: “O cargo de ministro do STF não pode ser um cabide de emprego para premiar quem quer que seja. É inadmissível que alguém reprovado em concurso possa ser premiado como ministro do Supremo por ter sido um bom advogado do PT. O governo quer estatizar o STF”.

Pedro Simon (PMDB-RS) cobrou as ligações com José Dirceu. José Agripino (DEM-RN) questionou: se Dias Toffoli estava condenado em primeira instância no Amapá (por contratos irregulares), como poderia ser ministro?

O advogado se defendeu usando, mais uma vez, a justificativa de que sua “pós-graduação foi a vida prática”. E jurou de pé junto que a ligação com o PT era “uma página que se vira na história”.

Ainda assim, a vitória de Toffoli na votação (secreta) foi expressiva: 58 votos favoráveis, nove contrários e três abstenções.

Festa paga pela Caixa

A cerimônia de posse, no dia 23 de outubro de 2009, durou apenas 15 minutos e foi marcada pela presença maciça da família de Dias Toffoli. A comitiva vinda de São Paulo incluiu todos os irmãos do novo ministro.

Além de Maria Esther e Maria Eloiza, estavam presentes José Luiz (bancário em Marília e candidato a vereador pelo PT derrotado em três eleições), José Ticiano (“petista histórico” e ex-prefeito da cidade) e o caçula José Eduardo (portador de síndrome de Down, que chegou a morar com Dias Toffoli em Brasília e é frequentemente citado por assessores para destacar o lado afetuoso do magistrado).

Também foram à capital dois irmãos cujos nomes ganhariam notoriedade anos depois: José Eugênio, engenheiro eletricista, e José Carlos, cônego conhecido em Marília como “Padre Carlão”.

Ambos se tornariam donos da Maridt Participações, empresa que adquiriu participação no resort de luxo Tayayá, no Paraná — empreendimento que mais tarde entrou no radar de investigações por sua ligação com fundos associados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. No último dia 12, o próprio Dias Toffoli, relator do caso contra o banqueiro, admitiu publicamente ser “sócio anônimo” da Maridt.

A posse de 2009, no entanto, foi ofuscada por uma polêmica envolvendo a festa realizada após a cerimônia oficial. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a comemoração recebeu um patrocínio de R$ 40 mil da Caixa Econômica Federal.

O senador Pedro Simon criticou o gasto como um “absurdo desnecessário”, enquanto Toffoli afirmou não ter organizado a festa nem saber dos detalhes sobre o pagamento.

As “toffoletes”

Anos depois, em 2018, ao assumir a presidência do STF, Dias Toffoli promoveu outra festança amplamente noticiada pela imprensa. Dessa vez, o evento foi promovido por associações de magistrados, com ingressos vendidos aos convidados por R$ 250.

Mais de 1,5 mil pessoas foram ao “beija-mão” do ministro no espaço Hípica Hall, em Brasília. Fã do rock nacional dos anos 80, Toffoli foi homenageado com shows dos cantores Leoni e Leo Jaime (mas virou meme ao aparecer num vídeo cantando “Tempo Perdido”, da Legião Urbana).

Entre vinhos, risotos e selfies com os poderosos da capital, um grupo de servidoras de seu gabinete também se destacou nos jornais por se autodenominar “as toffoletes”. Empolgadas com a atenção dos repórteres, as tietes chamavam Toffoli de “lindo” e elogiavam o carisma do chefe, considerado por elas ”gentil”, “generoso” e “boa praça” — um verdadeiro “amigo dos amigos”.

Matéria: Gazeta do Povo

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Gabriel de Melo

Criador, fundador e locutor da Rádio Esperança e também do Blog Palavra de Esperança, tem como objetivo divulgar o evangelho de Cristo par outras pessoas através da Internet por meio dos louvores e da palavra de Deus nas mídias sociais.

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