A matemática do aprendizado

Experimentar, errar, tentar novamente e avançar. Em essência, é assim que se aprende matemática. A lógica da disciplina acompanha, em certa medida, a própria trajetória das políticas públicas voltadas ao ensino do tema nas escolas brasileiras. No Paraná, esse percurso também tem sido marcado por revisões, ajustes e aperfeiçoamentos ao longo do tempo. Assim como ocorre no próprio processo de resolução de um problema matemático, a construção de soluções educacionais exige análise, tentativa e capacidade de corrigir caminhos sempre que necessário.
Os efeitos da pandemia de covid‑19 sobre a aprendizagem foram profundos. Levantamentos nacionais mostram que, em 2023, apenas 5,2% dos estudantes do ensino médio alcançaram aprendizado adequado em matemática, queda em relação a 6,9% em 2019. Avaliações internacionais, como o Pisa, indicam perdas de até 15 pontos na disciplina entre 2018 e 2022, o equivalente a quase um ano de aprendizado. Para contornar essa defasagem, o Paraná iniciou em 2025 ações de recomposição de aprendizagem, incluindo na matriz curricular duas horas semanais de reforço em matemática para o 9º ano do ensino fundamental e 3ª série do ensino médio, complementadas em 2026 pelo 6º ano.
Em educação, como na matemática, o progresso acontece passo a passo, e cada conquista abre novas possibilidades para o que vem a seguir
O programa envolve reformulação curricular em parceria com especialistas do Instituto Itaú e Reúna, reorganização da formação docente com o Instituto Canoa (baseada em métodos desenvolvidos pela Universidade de Stanford) e material didático alinhado aos diferentes níveis de proficiência. Um diferencial é a docência compartilhada no 6º ano, com dois professores em sala, permitindo instrução diferenciada conforme o ritmo de cada estudante. Educadores mundo afora, chancelam a metodologia. Um exemplo, é a revisão sistemática de 2023 na Education Sciences, conduzida por Malin Gardesten, da Linnaeus University (Suécia), que mostrou que esse modelo amplia o acesso ao aprendizado individualizado. A premissa é simples, mas essencial: quanto mais cedo as dúvidas são percebidas e trabalhadas, maiores são as chances de que o aluno consiga avançar com segurança na aprendizagem.
Até aqui, os primeiros indicadores começam a sugerir que iniciativas dessa natureza podem contribuir para reduzir parte das dificuldades históricas associadas à aprendizagem matemática. Dados da Prova Paraná Mais, avaliação diagnóstica aplicada pela rede estadual ao longo do ano letivo, apontam evolução recente nos resultados da disciplina. Entre 2024 e 2025, o Indicador de Resultado (IRS) de Matemática cresceu tanto no 9º ano do ensino fundamental quanto na 3ª série do ensino médio: no primeiro caso, a média passou de 246 para 258 pontos; no ensino médio, avançou de 268 para 281 pontos. Embora se trate de um recorte específico, os números indicam uma tendência de melhora. Quando observados ao lado de outros indicadores educacionais, esse movimento ganha ainda mais consistência.
Em âmbito nacional, o Paraná também aparece entre os melhores desempenhos do país em matemática. No índice geral do IDEB de 2023, o estado alcançou 4,9 no ensino médio e 5,5 nos anos finais do ensino fundamental, acima das médias nacionais de 4,3 e 5,0, respectivamente. O índice combina taxas de aprovação com o desempenho nas provas do Saeb, que avaliam as aprendizagens em língua portuguesa e matemática. Nessa avaliação, os estudantes paranaenses registraram 283,89 pontos de proficiência em matemática no ensino médio, colocando o estado entre os melhores resultados do país na disciplina.
Assim como na resolução de um problema matemático, em que diferentes operações contribuem para chegar ao resultado final, os avanços observados na educação paranaense também são fruto da soma de diversas estratégias. Entre elas estão a aplicação periódica de avaliações diagnósticas, que permitem identificar com mais precisão as dificuldades dos estudantes, a oferta de materiais estruturados de apoio ao professor, programas de formação continuada para docentes e o aprimoramento dos processos de seleção de diretores escolares. A essas iniciativas somam-se ações voltadas à redução da evasão, como o fortalecimento da alimentação e da conectividade nas escolas, criando condições mais favoráveis para o aprendizado. Nesse conjunto, a tecnologia também desempenha papel complementar, ampliando as oportunidades de prática e contribuindo para a consolidação de habilidades matemáticas por meio do uso de ferramentas de apoio como Khan Academy, Matific e Wayground. Em educação, como na matemática, o progresso acontece passo a passo, e cada conquista abre novas possibilidades para o que vem a seguir.
Roni Miranda é do secretário de educação do Paraná.
Matéria: Gazeta do Povo





