Golpistas e autoritários em desconstrução

Sabe quando um esquerdista é pegado fazendo tudo aquilo que diz abominar? O sujeito passa a vida acusando os seus adversários de racismo, por exemplo, e um dia é flagrado fazendo exatamente a mesma coisa?
Em vez de dizer que é, realmente, sou um hipócrita e carrego mais vileza do que a que aponto em meus adversários, ele apela para a responsabilidade do cosmos, para o problema geral do racismo no universo. O problema não é com ele; o problema é o racismo metafísico, que é uma coisa muito profunda e “estrutural” em nossa sociedade. Ou seja: na verdade ele é só uma vítima das estruturas da sociedade, que praticamente o forçaram a ser racista. E assim ele consegue, com muita humildade (e empáfia), reconhecer: posso ser racista, mas sou um racista em desconstrução, diz o progressista pegado no flagra.
Da mesma maneira temos visto, hoje, diversos autoritários em desconstrução, ou censores em desconstrução. São aqueles progressistas que passaram os últimos anos promovendo a perseguição à direita, com censura e suspensão dos seus direitos civis, com o objetivo de “salvar a democracia”, e agora parecem querer acordar do transe.
Como Bolsonaro era visto como a reencarnação de Hitler, valia absolutamente tudo para retirá-lo da vida pública: se Bolsonaro existe, tudo é permitido. E assim uma série de instituições – mídia, academia, judiciário etc. – mergulhou na psicose de que a república vivia uma grande ameaça existencial, e que apenas medidas excepcionais poderiam-na salvar.
Como é possível que, depois de salvarem a democracia, tantas instituições se mostrem degeneradas? O que exatamente foi salvo? Ou melhor: o que exatamente se destruiu no processo de se salvar a democracia?
Como ocorre em qualquer psicose de massa, há pessoas que realmente acreditam na assombração (são os true believers), e há também aqueles que não acreditam tanto, mas que se aproveitam da blindagem que essa nova razão de Estado pode-lhes conferir. Quer dizer que se eu disser que estou combatendo Bolsonaro para salvar a democracia eu recebo um passe-livre? Inclusive para corrupção? Bem, nesse caso, combater a direita e “salvar” a democracia tornam-se incentivos(e álibis) para os piores escroques. O Brasil de hoje vive a mais pura consequência dos incentivos que o antibolsonarismo psicótico da hegemonia progressista estabeleceu para o país.
Essa foi a cortina de fumaça, o biombo de álibis – salvar a democracia, ameaça de golpe, extremismo, polarização, ódio, ataques, fake news, redes sociais etc. – que tudo escondeu e permitiu, que transformou em intocável e inimputável qualquer antibolsonarista, e que assim acelerou a degeneração moral e institucional que hoje se testemunha.
Se vale qualquer coisa para defender a democracia, bem, você vai acabar obtendo…qualquer coisa. E assim vai ficando claro aquilo que muitos de nós temos apontado desde 2019: para impedir que Bolsonaro destrua a democracia, os progressistas resolveram destruí-la antes.
Mas foi só Bolsonaro ser preso, foi só dissipar-se a fumaça, derrubar-se o biombo, e a verdade apareceu: o projeto de salvar a democracia não apenas não foi necessário (pois não havia ameaça, e portanto nada a ser salvo), como criou incentivos perversos na vida pública brasileira.
Como é possível que, depois de salvarem a democracia, tantas instituições se mostrem degeneradas? O que exatamente foi salvo? Ou melhor: o que exatamente se destruiu no processo de se salvar a democracia?
Agora os antibolsonaristas psicóticos, a galera do Bem, os androides da zumbilíngua da democracia, começam enfim a reconhecer o óbvio: que talvez a democracia tenha sido apenas uma desculpa, apenas um fogo de cobertura, em que uma série de atores pudesse camuflar as suas próprias investidas contra a república.
Diante da quantidade de escândalos de corrupção, diante da degeneração total das instituições da república, muitos progressistas parecem ter começado a perceber o problema, e quem sabe em breve não ouviremos uma nova versão da mesma desfaçatez: sim fomos golpistas, e sim somos autoritários; mas em desconstrução.
Matéria: Gazeta do Povo





