os 107 anos da Gazeta

Nesta semana, a Gazeta do Povo completou 107 anos de existência. Não continue a leitura como se o significado disso fosse pequeno ou óbvio. Você sabe quantos jornais brasileiros ativos são mais perenes do que a Gazeta? Poucos.
Para se ter uma ideia, dos considerados três maiores do País, apenas o Estado de S. Paulo tem mais idade; Folha de S.Paulo e O Globo são mais jovens. Embora existam outros veículos regionais mais antigos, poucos têm base de assinantes e alcance nacional como esta Gazeta do Povo.
Mas não é somente um jornal tradicional, também é pioneiro. De todos os grandes veículos em circulação, foi o primeiro a migrar integralmente para o formato digital, algo que será inevitável para todos em um futuro próximo. E se tornou ainda maior depois disso, deixando de ser regional para ser nacional.
Talvez por isso muitos leitores e assinantes não tenham noção da diferença em relação às mídias novas, nascidas digitais, sejam sites de notícias, revistas digitais, perfis de rede social, blogs, newsletters e coisas assim. Não: a Gazeta do Povo não é a mesma coisa.
O país conhece muitos homens influentes, mas poucos dispostos a pagar o preço de dizer o que pensam quando o assunto é o topo do sistema.
Se o leitor não é daqui de Curitiba e, caso esteja por aqui algum dia, convido a passear pela região da praça Carlos Gomes, mais especificamente na rua Monsenhor Celso. Passará por um prédio centenário que, por décadas, foi a sede do jornal. Repare na calçada.
Sim, na calçada de petit-pavé. Depois do Rio e de Manaus, Curitiba foi uma das primeiras cidades do país a receber esse tipo de calçamento em meados da década de 1930, remontando o estilo dos portugueses, que foram responsáveis por trazer as pedras ao país no início do século XX.
Entre figuras de rosáceas, pinhões, araucárias e outros símbolos paranistas que estão por vários pontos da cidade, em especial no centro, ali na Monsenhor Celso, defronte do antigo prédio da Gazeta, o petit-pavé traz inscrito o nome do jornal repetidas vezes.
Você pode enxergar nisso apenas um ornamento urbano e, em mim, um nostálgico puxa-saco. Mas creio que isso simboliza muito mais nesta nova era digital, que democratizou o jornalismo, mas também barateou a responsabilidade.
Estamos acostumados a confundir fofoca com informação, engajamento com relevância e opinião com prova. Nunca foi tão caro sustentar uma linha editorial embasada em convicções claras, com coragem de contrariar o corporativismo da imprensa e das elites, o consenso instantâneo, o linchamento do momento. A Gazeta do Povo fez e faz isso.
E neste aniversário aconteceu algo ainda mais impressionante. O presidente da Gazeta do Povo apareceu: gravou um vídeo que merece ser visto e compartilhado. Não foi para “marcar presença”, como quem sorri para o bolo e agradece aos assinantes com a linguagem neutra das comemorações corporativas. Foi para falar do país.
Ele descreveu uma situação de “permanente suspensão do Estado de Direito e da vida democrática”, atribuída à hipertrofia do Poder Judiciário. E, sem meias palavras, cravou o diagnóstico: uma “ditadura do Judiciário”. Não parou aí: em vez de encerrar no alarme, foi adiante, apontou caminhos, sugeriu ações, ofereceu ideias concretas do que fazer.
É difícil explicar a gravidade desse gesto sem cair em exagero. Donos de jornal sempre existiram, mas um dono, de rosto aberto, voz própria e CPF simbólico diante do poder, quase nunca.
A tradição brasileira sempre preferiu o conforto da penumbra: o editorial sem assinatura, a nota “da direção”, a indignação em terceira pessoa. O país conhece muitos homens influentes, mas poucos dispostos a pagar o preço de dizer o que pensam quando o assunto é o topo do sistema.
Num ambiente em que divergência virou má-fé, em que crítica virou crime, em que o vocabulário democrático é usado para justificar práticas cada vez menos democráticas, expor-se contra isso é um ato de risco. Não apenas o de virar alvo, de se tornar pretexto para novas arbitrariedades. Mas também o risco de ser reduzido a caricatura para que o conteúdo do que foi dito não precise ser enfrentado.
Há uma passagem bíblica que assombra épocas de mudez diante da verdade: se a gente se cala, as pedras clamam. Não é à toa que, na Monsenhor Celso, o nome do jornal está inscrito em pedra.
Matéria: Gazeta do Povo





