Operações contra o crime redesenham ranking das distribuidoras de combustível

O setor de combustíveis no Brasil encerrou o último ano com marcas históricas e reviravoltas surpreendentes. Segundo dados consolidados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o consumo de diesel atingiu o recorde de 69,47 bilhões de litros, enquanto a gasolina avançou 5,1%, chegando a 46,65 bilhões de litros.
Por trás desses números, ocorre uma transformação silenciosa e profunda na organização deste mercado. O ranking das maiores distribuidoras do Brasil, antes congestionado por empresas de crescimento súbito e origem duvidosa, está sendo redesenhado.
No estado de São Paulo, principal mercado consumidor de combustíveis do país, a lista das maiores vendedoras do segmento mudou drasticamente entre o fim de 2024 e o fim de 2025, segundo a ANP. Cinco das dez primeiras colocadas não apenas despencaram no ranking como praticamente desapareceram após as megaoperações policiais contra empresas suspeitas de fraudes no setor no ano passado.
Em 2024 Raízen, Ipiranga e Vibra ocupavam o pódio com 21,68%, 19,01% e 16,35% de participação no mercado, respectivamente. Em 2025, as fatias passaram para 23,53%, 20,71% e 18,41%. Maximus, Estrela, Arka, Duvale e Petroworld, que em 2024 ocupavam respectivamente a quarta, sexta, sétima, oitava e nona colocação no ranking das maiores distribuidoras do estado, praticamente desapareceram.
A reportagem da Gazeta do Povo tentou contato com as cinco empresas e não localizou um representante para comentar os motivos do encolhimento do negócio. O espaço continua aberto para manifestações.
No estado, empresas de médio porte dobraram sua fatia de mercado com a saída das suspeitas de fraude. A Avant, hoje a quarta maior no estado, por exemplo, passou de 1,9% para 3,8% das vendas. A fatia de mercado da ALL, a quinta, subiu de 1,5% para 2,8%.
Antes das operações contra fraude em combustíveis, distribuidoras sem infraestrutura robusta superavam grupos tradicionais
Até meados de 2025, antes das operações, o ranking da ANP em São Paulo apresentava anomalias que desafiavam a lógica de mercado. Distribuidoras sem infraestrutura logística robusta ou histórico de atuação começaram a figurar entre as dez maiores do estado, superando grupos tradicionais e consolidados.
No âmbito nacional, a tendência se repete. Dados da ANP apontam que, de dezembro de 2024 a dezembro de 2025, a fatia de mercado das três maiores distribuidoras do país — Vibra, Raizen e Ipiranga — nas vendas nacionais de gasolina subiu de 53,16% para 55,41%. No diesel, foi de 56,15% a 59,50%.
Investigações do Gaeco do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Federal, como as operação Carbono Oculto e a Soldi Sporchi, revelaram que facções criminosas, notoriamente o Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizam o setor para lavar dinheiro e maximizar os lucros com combustíveis adulterados e fraude fiscal. Diversas distribuidoras e centenas de postos foram lacrados ou estão na mira da polícia e MP.
As investigações revelaram que o capital oriundo do tráfico de drogas financiava a compra de grandes volumes de combustível, que eram vendidos abaixo do preço de custo graças a esquemas de sonegação de ICMS e adulterado com o uso de metanol.
Com a intensificação das megaoperações entre agosto de 2025 e o início de 2026, o cenário mudou. Em São Paulo, as fatias de mercado que estavam pulverizadas em distribuidoras de fachada começaram a retornar para as grandes empresas tradicionais do setor. Nomes que apareciam nos relatórios mensais da ANP como “fenômenos regionais” desapareceram das planilhas. Em contrapartida, as gigantes Vibra (postos BR), Raízen (postos Shell) e Ipiranga (postos Ipiranga) recuperaram terreno em volume de vendas.
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Modelo de negócios de quem dependia do preço predatório sofre revés
No início de abril, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que autoriza a ANP a acessar dados fiscais permanentes (NF-e, NFC-e e CT-e) das empresas do setor, o que deve apertar mais a fiscalização na área. Sem isso, a agência reguladora fica com uma visão limitada, dependendo de informações declaratórias das próprias empresas.
Agora, o cruzamento de dados em tempo real permite identificar inconsistências entre o que a distribuidora diz que comprou e o que o fisco registra que foi vendido. Essa transparência forçada ataca o coração das distribuidoras piratas: a sonegação estruturada que permeia a fraude no setor de combustíveis.
Sem a capacidade de sonegar, o modelo de negócios dessas empresas, que dependia do preço predatório para ganhar volume e subir no ranking, colapsou. O mercado agora assiste à consolidação de distribuidores médios e regionais que, antes asfixiados pela concorrência desleal, voltam a respirar e a expandir suas operações de forma legítima.
A Secretaria de Fazenda do Rio de Janeiro, por exemplo, informa que a arrecadação de ICMS com combustíveis cresceu 8,12% em 2025, para R$ 9,5 bilhões, puxada por “fatores como a expansão da atividade econômica e a variação dos preços e o fortalecimento das ações de combate a irregularidades tributárias”.
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo publicada em março, Rafael Grisolia, presidente da Ale, quarta maior distribuidora de combustíveis do país, diz que as vendas do grupo cresceram 8,2% em 2025. “Em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde as ações de fiscalização tiveram maior intensidade, os reflexos foram ainda mais evidentes”, afirma Grisolia ao jornal. Segundo o executivo, entre agosto e setembro, as vendas da Ale avançaram 30% no mercado paulista e 40% no do Rio.
Setor de combustíveis volta a despertar interesse de grandes grupos
Em relatório de análise distribuído a investidores no início de fevereiro sobre o mercado de combustíveis brasileiro pós-megaoperações, o Itaú BBA afirma que “o setor de distribuição de combustíveis no Brasil está vivendo uma transformação profunda”, voltando a despertar até o interesse de grandes investidores.
Foi também em São Paulo e no Rio de Janeiro onde ocorreu a maior recuperação de mercado pelas três maiores empresas do setor. Segundo o Itaú BBA, entre março e dezembro, elas avançaram 9 pontos percentuais no mercado paulista de gasolina e 13 pontos no mercado fluminense. No diesel, completa o relatório do banco, as três companhias recuperaram 6 pontos percentuais em São Paulo e também 13 pontos percentuais no Rio.
No balanço público de 2025, a Ipiranga fala em “forte expansão, principalmente pela retomada do mercado após as medidas de combate às irregularidades no setor durante o segundo semestre”. As margens da empresa cresceram 7% no quarto trimestre em relação ao mesmo período de 2024. A Ipiranga é a segunda maior empresa do setor.
A maior, a Vibra Energia, também viu um cenário de crescimento consistente, influenciado “pelo fortalecimento do arcabouço regulatório, maior rigor no combate a irregularidades e redução de assimetrias competitivas”.
Matéria: Gazeta do Povo






